Cantão, o encontro de três biomas: Amazônia, Cerrado e Pantanal! Isso faz sentido?

Cantão, o encontro de três biomas: Amazônia, Cerrado e Pantanal! Isso faz sentido?

O Cantão está localizada na região oeste do estado do Tocantins, majoritariamente nos limites dos municípios de Caseara, Marianópolis do Tocantins, Pium e Divinópolis do Tocantins. A região é delimitada pelos rios Araguaia e Javaés, rio do Côco e rio Caiapó.

Nos últimos 15 anos, a região do Cantão tem se destacado como uns dos principais polos turísticos do estado do Tocantins, atraindo pessoas de diferentes partes do Brasil e do mundo. Quem passa pela região leva consigo notório conhecimento: complexo sistema de centenas de lagos e lagoas, ilhas fluviais e praias paradisíacas que proporcionam banhos prazerosamente relaxantes e refrescantes, flora e fauna de grande importância mundial por abrigar espécies raras, endêmicas e até mesmo ameaçadas de extinção como mogno-brasileiro (Swietenia macrophylla), o boto-do-araguaia (Inia araguaiensis) ou a onça-pintada (Panthera onca).

Além do mais, turistas e visitantes aprendem que o Cantão, em conjunto com a Ilha do Bananal, integra o denominado Vale do Araguaia, uma área de baixa altitude caracterizada por relevo plano, o que a configura como uma das maiores planícies inundáveis do Brasil e da América do Sul. Em função dessa peculiaridade, duas premissas locais se destacam: a primeira refere-se à dinâmica sazonal do pulso de inundação, quando as planícies se alagam e transbordam durante o período chuvoso e depois encolhem e se esgotam, ficando secas na estiagem, condições que determinam toda a vida ali existente, seja vegetal, animal ou humana. A segunda premissa, foco desta análise, é que a região do Cantão constitui um ecótono, ou seja, uma zona de transição ecológica, neste caso, entre biomas brasileiros.

Provavelmente a maioria, se não a totalidade, dos turistas e visitantes que estiveram na região já ouviu dizer que o Cantão representa o ponto de encontro entre os biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal. Essa afirmação não provoca alguma estranheza? Encontro de três biomas? Por que não seriam apenas dois, conforme mostrado nos mapas de biomas? De fato, Uma intrigante indagação!

O nordeste do estado do Mato Grosso, toda porção oeste e central do Tocantins e parte central do Maranhão possuem uma importante característica, evidente nos mapas de biomas do Brasil, representam uma zona de contato entre os biomas Cerrado e Amazônia. Conceitualmente, a definição de bioma pode ter diferentes definições, por outro lado, há ainda autores que preferem o uso do conceito de domínios morfoclimáticos. Todavia, usualmente os limites dos biomas apresentados pelo IBGE, sobretudo, o derradeiro proposto em 2019, é o mais amplamente utilizado no Brasil. Dito isso, após uma rápida passagem pelos mapas dos biomas do Brasil, é de notória constatação que os limites do bioma Pantanal não sobrepõem a região do Cantão no Tocantins. Inclusive os limites do Pantanal estão distantes, em mais de 900 km em linha reta do Cantão.

O nordeste de Mato Grosso, toda a porção oeste e central do Tocantins e uma faixa central do Maranhão compartilham uma característica relevante: conforme se observa nos mapas de biomas do Brasil, constituem uma zona de transição entre o Cerrado e a Amazônia. Conceitualmente, o termo bioma admite diferentes definições; por outro lado, alguns autores preferem empregar o conceito de domínios morfoclimáticos. Ainda assim, os limites de biomas divulgados pelo IBGE, em especial a última versão publicada em 2019, são os mais comumente adotados no Brasil. Dito isso, uma rápida análise dos mapas de biomas brasileiros permite verificar com facilidade que os limites do bioma Pantanal não coincidem com a área do Cantão, no Tocantins. Inclusive, a borda do Pantanal encontra-se a mais de 900 km em linha reta do Cantão.

Projeto Restaura Cantão

Além disso, a ideia de zona de transição ou zona ecotonal implica a existência de uma faixa de contato entre os biomas, ou seja, uma área de adjacência nas extremidades ou periferias dos biomas. O Pantanal possui áreas de transição com a Amazônia e o Cerrado, porém essas áreas, nitidamente, não estão dentro dos limites do estado do Tocantins. Uma análise do mapa de biomas do Brasil confirma que a convergência dos biomas Pantanal, Amazônia e Cerrado realmente acontece, porém, eles estão presentes apenas nos limites noroeste de Mato Grosso e centro-leste de Mato Grosso do Sul.

Deste modo, se apenas uma análise cartográfica nos mostra que o bioma Pantanal não tem limites com o estado do Tocantins, por que essa afirmação de que o Cantão é o encontro de três biomas é tão recorrente?

Quem já esteve no Cantão, possivelmente notou em suas caminhadas ou deslocamentos de barcos uma diversidade de ambientes naturais. Os deslocamentos ocorrem ora em regiões campestres dominadas por gramíneas e mescladas com formações savânicas, caracterizadas por aglomerados e capões de árvores e arbustos esparsos, fisionomias típicas do bioma Cerrado, ora em estruturas florestais robustas, compostas por árvores frondosas de troncos grossos e de grande porte, com mais de 30 metros de altura, e sub-bosque sombrio, fisionomias típicas da Amazônia. Em virtude da vasta planície inundável do Cantão, todas essas formações vegetais ficam submersas durante as chuvas. Com a chegada da estiagem e início da vazante, ocorre uma significativa diminuição do nível da água, momento em que toda essa vegetação emerge.

Essa característica de períodos de cheia e seca é comum em regiões que sofrem com fortes pulsos de inundação sazonais. No Brasil, a planície alagável mais conhecida e emblemática é o Pantanal. Assim, na região do Cantão, a existência de uma dinâmica de inundação sazonal faz com que as fitofisionomias locais do Cerrado e da Amazônia fiquem alagadas sazonalmente, o que permite compará-las a grandes pântanos. Mesmo quem nunca visitou o Cantão pode notar a influência das inundações sazonais sobre os cerrados e florestas locais ao usar aplicativos de imagens de satélite, como Google Maps ou Google Earth, ou ao explorar plataformas como Mapbiomas.

Essa dinâmica ecológica de inundação do Cantão, que se assemelha ao processo de inundações do Pantanal por criar paisagens pantaneiras, é a principal razão para a alcunha “Cantão, o encontro de três biomas”. Além disso, a abundante presença de aves aquáticas no Cantão, como cabeças-secas, tuiuius e bandos incontáveis de garças, juntamente com a impressionante presença do cervo-do-pantanal (Blastocerus dicotomus), contribui significativamente para a aplicação dessa perspectiva tendenciosa. Essas espécies têm sido historicamente retratadas na mídia como representantes legítimos do bioma. Apesar do nome, o cervo-do-pantanal, mais as aves mencionadas não são espécies exclusivas do bioma Pantanal; na verdade, todas elas estão fortemente ligadas a planícies alagadas e podem ser encontradas em diferentes regiões da América do Sul.

Projeto Restaura Cantão

Por fim, o cenário real, corroborado por dados, conceitos e evidências naturais, indica que o Cantão é o ponto de encontro de não três, mas apenas dois biomas, Amazônia e Cerrado. Áreas campestres cobertas de gramíneas e palmeiras piaçavas, além de formações de savanas típicas de cerrado se mesclam e entrelaçam com capões e manchas de florestas densas, escuras e frias.

Tudo isso ocorre em uma planície inundável, cujas características visuais e ecológicas remetem ao complexo ecossistema de habitats pantaneiros. Embora semelhante ao Pantanal, esse ecossistema sazonal dos rincões ocidentais do Tocantins está geograficamente bastante distante. Em resumo, para responder à pergunta inicial, o Cantão é o encontro entre os biomas Amazônia e Cerrado, sob condições especialmente pantaneiras.

Texto: Túlio Dornas