Cantão entre águas e estações
O Cantão é uma terra de contrastes marcada por ciclos naturais que lembram as estações do ano. Cada período transforma completamente a paisagem, revelando um cenário dinâmico onde água, floresta e vida selvagem convivem em constante renovação.
O chamado “inverno amazônico” começa em outubro, quando chegam as chuvas que se estendem até março. Nesse período, a água domina a paisagem e transforma o território, e quase todo o lado amazônico do Cantão fica embaixo d’água. Apenas as árvores mais altas mantêm parte de seus galhos fora da superfície. Com pouco solo seco disponível, diversas espécies de pássaros, répteis e mamíferos passam a viver nos galhos das árvores durante esse período.

Logo depois surge uma breve “primavera”, entre o final de março e abril, quando plantas aquáticas amazônicas florescem ao longo dos rios e a natureza revela cores inesperadas. Entre maio e outubro, antes que as chuvas retornem, o clima seco e mais fresco marca o que é chamado na região por “verão amazônico”. Nesse momento, o Cerrado floresce e frutifica, atraindo diferentes espécies da fauna silvestre.
Com o início da estação seca, o céu ganha um azul intenso, pontuado por nuvens muito brancas. À medida que as águas recuam para o leito dos rios, deixam para trás centenas de lagos isolados. Esses ambientes se tornam verdadeiros berçários naturais, onde peixes se reproduzem e crescem. E, com o recuo da água, surgem também longas praias de areia branca ao longo dos rios, que servem de pontos de descanso, alimentação e reprodução para diversas espécies, entre elas, as aves migratórias e os quelônios.

Após meses de calor e estiagem, as primeiras chuvas trazem alívio imediato. Logo depois das primeiras tempestades, a floresta volta a se pintar de verde. Com a subida das águas, a mata desperta de sua quietude e começa a florescer. Em todos os cantos surge uma forte sensação de renovação, como se a vida retomasse seu ritmo depois de um longo período de descanso. E o ciclo de cheia e seca inicia-se novamente.
Autoria:
Beatriz Diogo Vasconcelos
Bióloga, herpetóloga e gerente do Instituto Araguaia

