Ecoturismo de observação de aves e a região do Cantão: uma dupla que combina muito!

Ecoturismo de observação de aves e a região do Cantão: uma dupla que combina muito!

A observação de aves, ou birdwatching, é uma das atividades de ecoturismo que mais cresce no mundo, unindo a contemplação da natureza ao rigor da ciência cidadã. Praticada por milhões de entusiastas, essa atividade consiste em identificar e observar aves em diferentes habitats através do avistamento e audição, utilizando binóculos, guias de identificação e gravadores de áudio. Também tem aquele grupo de observadores que curte a fotografia e utiliza de equipamentos fotográficos para documentação de cada espécie registrada. Mais do que um passatempo relaxante e empolgante, a prática de observar aves desempenha um papel fundamental na conservação ambiental, pois os registros fotográficos e de áudio gravados alimentam plataformas globais de monitoramento, ajudando cientistas a mapear espécies e proteger ecossistemas ameaçados.

Para além do impacto científico, o turismo de observação de aves também movimenta economias locais e promove a conscientização ecológica global. Os observadores, costumam viajar para diferentes regiões, muitas delas remotas, gerando renda direta para guias locais, pousadas e comunidades tradicionais. Essa cadeia econômica transforma as paisagens naturais, a flora e fauna em ativos valiosos, incentivando governos e proprietários de terras a criarem unidades de conservação e reservas privadas para garantir a sobrevivência das espécies e o fluxo contínuo de visitantes.

No cenário brasileiro, a região do Cantão, localizado no oeste do estado do Tocantins, desponta como um dos santuários mais espetaculares e estratégicos para a observação de aves. A região está situado em uma zona de transição ímpar entre o Cerrado e a Amazônia (ou ecótono Cerrado-Amazônia), incrementada por um marcante pulso de inundação sazonal, que faz da região uma das mais importantes planícies inundáveis do país, com centenas de lagos e lagoas, alguns deles temporários e cercados pelos rios Araguaia, Javaés, Côco e Caiapó. O Cantão é protegido legalmente pois está inserido em um mosaico de unidades de conservação, sendo que sua biodiversidade está amparada no interior do Parque Estadual do Cantão, da APA Ilha do Bananal/Cantão e de um complexo de várias RPPNs (Reservas Particulares do Patrimônio Natural), dentre elas a RPPN Canto do obrieni e a RPPN Lago do Campo, ambas sob gerência do Instituto Araguaia.

Essa grande variação de ambientes permite que os observadores encontrem uma elevada riqueza de espécies, o que faz da região um destino obrigatório no roteiro do turismo de observação de aves, não só do Brasil como do continente sul-americano. Mas por que isso? A região do Cantão possui mais de 500 espécies de aves registradas, centenas delas representam elementos típicos do bioma Amazônia, como o anambé-pombo (Gymnoderus foetidus), o arapaçu-de-bico-comprido (Nasica longirostris) ou policia-do-mato (Granatelus pelzelni); enquanto outras dezenas são espécies típicas do bioma Cerrado como o mineirinho, (Charitopsiza eucosma), beija-flor-chifre-de-ouro (Heliactin bilophus) ou jacu-de-barriga-castanha (Penelope ochrogaster).

Além disso, o Cantão concentra um seleto grupo de espécies alvos dos observadores de aves devido a enorme raridade, estado de conservação ou por quesitos ecológicos notáveis como tamanho pujante, imponência e força ou beleza deslumbrante. Podemos ilustrar essas condições por meio de três espécies: o pica-pau-da-taboca (Celeus obrieni), espécie rara de pica-pau que foi considerada extinta no início do século e hoje encontra-se como vulnerável de extinção pelas listas oficiais de aves ameaçadas do Brasil e do mundo; do gavião-real (Harpia harpija), a maior águia das Américas e considerada uma das três águias mais potentes do planeta, é um predador de topo de cadeia alimentar que utiliza há décadas a região do Cantão como sítio reprodutivo; e a garça-da-mata (Agamia agami), considerada por muitos a mais bela garça do Brasil devido a plumagem multicolorida e iridescente; observadores de aves e mesmo ornitólogos a consideram uma pintura sublime.

Garça-da-mata Agamia agami entre galhos na região do CantãoGavião-real Harpia harpyja pousado em uma árvore no Cantão

Por fim, e talvez, a principal razão da região do Cantão apresentar uma importância continental na observação de aves é a ocorrência de espécies endêmicas, ou seja, aquelas que são exclusivas a determinada região. O Cantão, portanto, abriga de forma exclusiva pelo menos três espécies de aves: joão-do-araguaia (Synallaxis simoni), cardeal-do-araguaia (Paroaria baeri) e chororó-de-goiás (Cercomacra ferdiandii). Aqueles observadores de aves, de qualquer parte do planeta, que desejam registrá-las, necessitam se deslocar até os limites de distribuição geográficas dessas espécies, e deste modo, o Tocantins e a região do Cantão passam a ser um destino mais que apropriado, pois no Cantão elas ocupam ecossistemas protegidos, apresentam populações expressivas e são relativamente fáceis de ser detectadas, características desejadas por todo observador. A propósito, o Cantão é a residência consolidada de uma nova espécie de curutié brasileira, popularmente chamada de curutié-do-araguaia ou curutié-do-cantão, que encontra-se em processo de descrição científica e passará a ser a quarta espécie endêmica da região do Cantão. Esta atribuição, portanto, fará dessa vindoura espécie mais um alvo da atenção de observadores para registro e contemplação.

- Cardeal-do-araguaia Paroaria baeri pousado entre os galhosChororó-de-goiás Cercomacra ferdinandi pousado em um galho

Se você é um observador de aves assíduo ou está começando nessa atividade excitante, não hesite em colocar em sua agenda, e na sua lista de locais desejados para visitação uma espetacular passarinhada na região do Cantão. Certamente tem tudo para ser uma experiência encantadora, pois as aves além se exibirem em cores e sons, o ensinará muito sobre o nosso estado e nosso país!! Boa passarinhada, amigos e amigas!!!

Tulio Dornas
Autoria:

Tulio Dornas

Biólogo e Ornitólogo dedicado ao estudo das aves e à conservação da biodiversidade do Tocantins.